26 de ago de 2010

Bonito seria se fosse verdadeiro



Adentro as raízes cuneiformes das veias e líquidos anônimos, pelo passar da manhã percebo o descanso da noite passada que tu chegaste quente e logo foi se esfriando. Claro que não comento porque as insinuações te deixam nervosa, ríspida e lindamente adocicada... Mesmo que a pele de pêssego que tu constrói toda noite, com aquele creme que tu roubou da tua vó e faz você dançar com rodopios manuais por horas estará colado a mim pela aspereza da ânsia se espalhe pelo lençol, teremos um dia tranqüilo de tu me encarando de olhos fechados.

Os teus momentos sonolentos são sempre levantes instantâneos de repúdio e felicidade dentro de mim, pois cresço, crio, não me locomovo por estar paralisado longitudinalmente e com os pareceres na mão procurando por ti. Então se rasga da maneira mais bruta possível, corrigindo defeitos, destruindo perfeições e encorajando a descrição do segundo já vivido.
Dessa maneira as membranas do atrito perdem arrepios e ganham encaixes por entre as vergonhas, um suave apertar que me estrangula pelos rios que passam e deixam arrasadas as encostas de sangue. A boca expõe o dialeto de um mundo novo que só se expande, que assim quando se destrói um império se liberta seus escravos com aríetes empurrados em meio a libertinagem dos nossos sentimentos presos pelo cotidiano.

Finalmente me livro disso, como ao fim dos doze trabalhos de Hércules, me canso das sevícias e cortes que tu segue a se alimentar pelas profundezas. Não perdoo os dentes nem os toques, e ofegante observo entre o látex e a mulher que saiu de dentro de mim o último gesto de felicidade contida.


guilherme cruz. 

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18 de ago de 2010

Relato do resto

(... ou versinhos de parada de ônibus)



A vida segue aos trancos
As tripas em trapos
O coração, farrapos
O sangue se estanca com guardanapos,
a dor se ameniza com fitoterápicos




Por Pagouche (Uma Ilustre)


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5 de ago de 2010

Último dia frio do último verão.


Carece se indignar.
Sim porque os vestígios dos medos já não dizem nada, por si, pra si, por vós... Nada mais conjuga as vontades passadas pela fresta do coração.
É ele novamente que te impulsiona e exige ficar do seu lado. Eu caio, levanto, olho para você novamente e mais nada eu vejo e toco...e minto.
Porque é assim que você me vê, um indigno ser conflitante.

Como eu desejava aquelas pessoas que passavam junto a mim, aquelas que roçavam o ombro ou se despiam com um encontrão eram os melhores amores pelas ruas. Eu nada via, mas sentia que era. E como tu fizera para dissimular tanta gente?
Eu por mim já havia dito as últimas palavras, mas como é difícil se despedir...

Assim vai se dividindo os rancores. Paixão e servidão pra cá, mordidas e carícias pra lá...
“Os beliscões são meus...”
“Nada disso! Então fico com os arranhões”.

E as coisas vão se espalhando, se misturando, se confundindo, e enfim se percebe que nada foi nosso.
Ouço os últimos barulhos no corredor. Saltos que de tão altos me ausentavam você de mim, você subia e eu encurvava. Uma parábola humana de vontades contidas e olheiras rasgadas. Não julgo mais.
Eu doei o vazio entre os espaços acolchoados.  
Agora eu me lavo, condeno e cuspo pra fora nesse frio que é o tempo.

...
Último espinho retirado...
Aqui estou novamente encarando as besteiras que o espelho diz.


guilherme cruz.



Fado de Fada - Pedro Rocha


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3 de ago de 2010

É ferro na boneca, baby!

Descabeladas vão as bonecas para fora da sala quente e vazia
Elas vazam pelas ruas imundas e perfumam-se com o cheiro do lixo
Coletam tudo em seus carrinhos de telas e rodinhas tortas
Lindas bonecas descalças, que furam o asfalto de tanto arrastar-lhe a borracha de seus chinelos-de-dedo-arrebentados

- Como dançam seus pés! 

No compasso da valsa da solidão, elas vão acompanhadas de cachorros e pulgas amigas
E pulam as pulgas E pula seu estômago
E rolam os cachorros [que divertem-se enroscando seu sexo em plena avenida]
E as bonecas desabrocham a flor antes do tempo, nas queridas esquinas
E ouvem as buzinas
E somam
Somam
Somam o ferro [e os filhos]



(Fealdade)


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