21 de jul de 2010

Música-cerveja e vinho-sagu


Imagem: Egon Schiele, The Family (1918)

Os bêbados de Bariloche eram tão iguais a nós que cheguei a pensar que estava lá quando estava aqui. Não sei se foi o álcool, não sei se foi o sorriso-aliviado, mas o mundo agiu estranho e deu voltas para trás. Nós estávamos lá. Exatamente onde sempre estivemos aquelas tantas e tantas vezes. E aquele alguém mudou o cabelo, aquele outro mudou a casa, o espetáculo mudou o cenário e você mudou de par. Mas o cheiro do mundo continua o mesmo. E o cachorro sente frio e o bêbado sente a esperança de esquecê-lo em um cigarro. E os alguéns acham que o cachorro precisa de uma casa. E o fumante acha que dará esmola para o bêbado quando lhe estende um maçinho branco. E eu acho que o razoável é não fazer nada. Só beber a futilidade. Enrolada em um casulo de penas-e-pêlos esperando ver de quem foi a vez de morrer de frio. Rejeitando as carnes e desejando os carros. Que passam e passam como luzes quentes e lindas, misturando o vermelho e o amarelo como o cheiro do vinho e da cerveja que habitam em mim. Se quando eu deitar rolar o mundo, que ele avance ao diferente. Ou, pelo menos, me leve para outro lugar.

(Fealdade)
 


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19 de jul de 2010

Notificações nada urgentes de um início extremamente desgastado


Foto: João Bizarro Nave Fillho, 1966 

Já vai chegar Outubro. Em outubro faz um ano que um trio de dementes resolveu criar esta maravilha de blog-só-de-dois. O trio, embora muitos já saibam, é composto sem meias notas pela insólita-dupla-maravilhosamente-artística, da fotógrafa-poeta e do escritor-músico, e da auto-renegada-escondia-sem-criatividade, que, um ano depois, resolveu explicar-nos a sua história.


Quando ela nasceu, um anjo torto, daqueles que não tocavam trombetas, mandou um grilo falante roubar a sua criatividade. Toda a sua arte foi roubada num piscar de olhos. Ela nunca soube pintar. Os violões arrebentavam suas cordas quando ela tentava segurá-los. A caixinha-de-fósforo, coitada, ainda sente vontade de queimar-se toda quando ela tenta um sambinha. O cantar, desaparecido até hoje, decidimos suprimir dessa história para a preservação da imagem de nossa fonte, que de tão bom coração e tão pouco tempo emprestou-nos seu relato.

E a menina andou anos atrás do grilo. Conhecendo os sete-mares, soube, pela sua amiga baleia, que o filho do velho Gepeto andava por ai a fazer bobagens com o Grilo do Anjo Torto, o verdadeiro nome do famoso Grilho Falante. E andando pela terra ela encontrou o velho, que de tristeza morrera sozinho e sem-filho. E de tanta tristeza de ver aquela cena, a menina, que já era moça, revoltou-se em chama. Seu coração ardeu tanto que ela andou por nove anos a procurar o grilo ladrão e o menino perdido. 

Quando achou-os, eles andavam como burros em uma ilha só de meninos, liderados por adultos-ridículos-vestidos-de-crianças-porque-não-superaram-o-complexo-de-édipo-e-por-isso-tem-medo-de-amadurecer. A moça lutou sozinha, armada com a chama da tristeza, contra o líder verde deles, que era muito amigo do grilo que roubou o menino do Gepeto e a sua arte. Mas eram muitos meninos-adultos... Tantos e tantos que ela não pode vencer. Exausta, a sua única saída era pular em um barco-de-nuvem e fugir para sempre sem a sua arte roubada pelo grilo. Mas ela não fugiu de mãos vazias... Enrolado na nuvem ela colocou o menino-perdido.

Mesmo com vontade de transformar o menino em lenha, por ter abandonado o velho pai, ela levou-o para encontrar-se com o corpo sem vida, que ainda não estava decomposto, porque até os vermes que lhe comeriam a carne sentiam pena pelo querido velho. O menino chorou tanto que a chama da menina se apagou e ela ficou sem raiva e sem forças. E em pouco tempo a madeira do menino apodreceu. Sem chamas para queimá-los da dor, a moça disse aos vermes:

- Comam-os com esperança e transformem-os em terra.

E assim os vermes fizeram.


E da esperança dos vermes nasceu uma terra azul. E da terra azul nasceu um velho sorridente e um menino de sangue. E vendo aquela cena a menina transbordou em beleza. E a beleza saiu de dentro de suas orelhas, de sua boca e de seu nariz, espalhando-se pela terra e alimentando os vermes.Naquele instante, ela perdoou o grilo e decidiu seguir, mesmo sem o dom da arte que lhe foi roubado. E ela ficou vagando por muito tempo, ocupando-se do concreto e trabalhando até ficar sem horas.


Porém, ela nos contou que, recentemente, recebeu por correspondência uma caixinha com a assinatura do menino.  Dentro da caixinha havia um bolo feito por Gepeto. Cheirava como recém-saído-do-forno e ainda parecia estar quentinho por dentro. Quando ela mordeu o bolinho ele transformou-se em palavra e a palavra ela engoliu.
 
Nós soubemos de tudo isso quando ligamos para ela falando que já ia chegar Outubro. Quando ela terminou de contar a história perguntamos:

- Vai esperar completar um ano para começar a escrever?

E ela respondeu:

- Não mesmo. Já digeri a palavra.


(As pessoas da Sala de Jantar)


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15 de jul de 2010

Duda



Para onde irão,
para onde iremos?
Eu? desejo apenas sorrir,
Ou quem sabe chorar menos







De Álbum

Quadro de Gonzalo Isla van den Brule, pintor espanhol




Texto por Pagouche,
em homenagem ao amigo Gonzalo
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13 de jul de 2010

Olhava



Caras são as ruas limpas e coloridas dos últimos dias.
Parecem que as pessoas floresceram de prédios, das lajotas, das paredes de vidros, dos motores à diesel, das matas formadas por barbatimão.
Tudo pretende me surpreender, já ouvi dizer que é o meu signo.
Mas que diabos! Porque nos últimos dias o signo me encoraja, me desvia de assuntos, me sustenta as mentiras, me deprime e me faz melhor? Não sei o que está havendo, mas tudo parece lúcido, limpo, calmo, transparente.

Até essa mania de quantificar as coisas achando sinônimos. Os exemplos só ganham exatidão com essa listagem maníaca. Haja vírgula e paciência.

Também disseram que pode ser a miopia.
Alguns sentenciaram que só seria um novo enfoque pra vida. Eles quiseram me animar.
Era a vida embaçando os ladrilhos da casa da esquina, as janelas da vidraçaria, o alfinete no chão e a moeda na mesa. É a contração de sentidos, porque são os sentidos que vejo com maior nitidez. Tudo embaça, mas eu vejo o sorriso da funcionária do mês, a preocupação da senhora quando passa um menino negro do lado dela, as diferentes formas de afeto e medo que a criança tem quando abre os braços sentada no balanço.
Eu me sinto balançado em crer que tudo aquilo era nítido e próspero. Assim como foi num outono que eu não precisava de nada, ou naquele verão que eu tinha tudo. Sempre fui extremo, agora sou contido e me aperto entre as duas pálpebras pra te encontrar por aí.

Não, não é alguém específico.
Não é o amor da minha vida, com certeza não é.
É você, humano comum que permitirá um toque sutil pela leveza de um momento cotidiano de bem estar (pelo menos pra mim).
Eu lhe enxergo abaixando a cabeça e levantando-a levemente em direção sudoeste. Esquina do Intervalo com a Rua da Contradição, fazendo a volta pela Avenida Efêmera. Não tem como se perder!

Eu olhava. Eu procurava. Eu torcia. Eu queria te encontrar.
Tudo estava colorido, lúcido, limpo e transparente naquelas edificações, lajotas, vidros daquela senhora, funcionária, criança.
Você era tudo que eu via pelo novo enfoque e pela minha condição humana.

Então resolvi que nesse final de semana não beberia mais.


Por Guilherme Cruz
 

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4 de jul de 2010

Happy Hour II

(...ou suposições tragicômicas para um brega desAtino)

Se eu ganhasse na loto...
Compraria uma ilha,
um velho cinema,
fazenda e uma moto

Ah, se eu ganhasse,
Seria uma diva
junkie, blonde, beatnik
(rebelde de boutique)
Seria uma puta intelectual,
new hippie
Simone de Beauvoir avec Sartre,
très chic!

Oh sim! Caribe e Haiti
Roteiro de boas ações
Ações em voga na bolsa
Nasdak, Nova York, Japão
... bag Loius Vuitton
Cruzeiro com Elton John

Não, esquece!
Se eu ganhasse uma bolada
sumiria do mapa
a bordo de um velho Opala
numa trip sem escala
pra Macaé ou Roterdam.



(piadinha)

Por Amanda SchArr, com a colaboração da querida e ilutríssima Pagouche

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